JACK REACHER'S PLANNER
Mais outra semana pela frente! Eu aqui vendo filme e tentando esquecer o quanto de dinheiro tenho que arrumar para ser um Jack Reacher. Explosivos armas saltos. Essa loura é um tesão.
— Benhê! Como vai ser a festinha do baby?
Não acredito que domingo à tarde ela tá falando disso! Posso aumentar o volume da tv e ela vai achar que não ouvi. Posso cochilar…
A verdade é que não tenho um puto. O Dinho ficou de me arrumar um rolo com as peças que o Zinho me passou. Puta merda! Esses malandros também são muito enrolados. Às vezes me meto no trampo com eles só por causa da amizade.
Ouço os passos saindo do quarto. Fecho os olhos rapidinho.
— Benhê! O baby tá dormindo!
Continuo fingindo mas sinto o peso dela no meu colo. Abro os olhos. Ela já está sem roupa. Meto-lhe logo um beijo e aperto as coxas, deslizo a mão até a bunda. Ela se abre toda. Quer mais alguma coisa.
— O pastor disse que empresta o pátio da igreja pra festinha do baby.
Sinto tudo amolecer. Quando a esmola é demais o cego desconfia.
— Porra, vamo falar disso depois. Por enquanto fica só gostosinha assim. — Encho a boca com o peitão. Vem o gosto de leite. Continuo, logo passa. Ela geme e por alguns momentos esqueço festa dinheiro e a porra toda.
…
O corpo inteiro relaxa. Uma preguiça gostosa passeia pelo quadril. Ela se aconchega no meu peito.
— Meu gostoso… — sussurra. — Você sabe que quero fazer a festa, mas se ficar muito difícil, a gente deixa pra lá. Minha mãe já disse que faz um bolinho na casa dela.
Não sei se isso é a psicologia reversa. Só dela dizer deixa pra lá, já quero fazer acontecer tudo.
— Nada disso. Primeiro aninho do moleque tem que comemorar. — levanto procurando o celular. Preciso mandar uma mensagem pro Gordo. — Aquela paradinha ainda tá de pé? Tô dentro.
Pronto. Tava resolvido. Ia pintar a varanda e a garagem da Dona Marina amanhã. Trezentos contos e já podia começar a organizar a festinha.
Terça-feira
Levantei e peguei a moto. Deixei a madame no Mercadão pra comprar os enfeites. Agora era chamar o Binho pra parada logo mais à noite.
Paciência e determinação. Porra, pelo meu filho faço tudo. A festa importa? Mas é o que posso fazer. Vou alcançar. Tenho fé. Olha lá o Binho.
— E aí parça. Tá a fim de um ganho hoje?
— Manda aí.
— Naquele esquema. Fico com ele até amanhã e depois é todo teu. Aniversário do meu filho, sabe como é.
— Tô ligado. Passa aí logo mais.
Sinto minhas mãos suadas.
— Porra, tô na adrenalina. Tem um dois aí?
— Chega aí, mano.
Noite de terça-feira
Uma chuva fina resolveu cair. Mas tamo lá, firme e forte. Já passamos em frente à casa. A garagem tá vazia. Não demora muito, uma mulher embica a Renegade branca na entrada. O portão desliza na rua vazia. Desço da garupa. Puxo a pistola e colo no vidro da motorista. Ela levanta as mãos vazias e a cara cheia de terror. Destrava a porta e desce. Subo rápido. Acelero. O carro não sai.
— Como essa merda anda? — Tô furioso. Binho já vai longe na moto. Tô só.
— O botão entre os bancos — ela grita com uma voz rouca enquanto se afasta de costas.
Acho a porra do botão. Acelero e sinto o torque do carro. Sou Jack Reacher, caralho! Olho pelo retrovisor e vejo a mulher. Talvez ela tenha um filhinho fazendo aniversário.
Tardinha da quarta-feira
Apresento o carro pro Gordo. Como sempre nessas ocasiões ele está sério. Concentrado.
Mais dois caras de touca ninja explicam o esquema.
— Às oito todo mundo já saiu da loja. O vigia não vai estar lá. A milícia tá no esquema. Chegou, arrombou, pegou os aparelhos. Pronto.
11 horas da quarta-feira
Os dois de touca ninja seguem no Compass à frente. Gordo e eu, atrás no Renegade. Seguimos pela Uranos. Logo depois do Cacique eles param. Eu subo a calçada. Paro o carro com a traseira próxima à porta Rollmatic. Gordo desce, abre a mala. Aciona a máquina de corte plasma ligada ao gerador portátil. Se agacha e corta um retângulo em torno da tranca. O plasma desliza como faca na manteiga. Afastamos as folhas de aço e forçamos a de blindex. Entramos.
Um dos homens toma a frente e sobe uma escada que dá acesso a uma sala com porta estreita e fechadura digital. O cara digita uns números. O paraíso se abre. Pegamos as centenas de caixas de celular e jogamos nas bolsas. Sou o último a descer com duas delas. Estaco na porta.
— Coloca as bolsas no Compass. — A ordem vem da pistola na cabeça do Gordo enquanto a outra se vira em minha direção.
Puta que me pariu! Por que esses caras tão fazendo essa merda?! Só preciso de uma grana pra festa do meu filho. Solto as bolsas dando dois passos para trás. Me jogo no chão dentro da loja. Pego a pistola que Gordo me emprestou desde ontem. E atiro. Que se foda todo mundo.
Vejo a sombra de uma touca ninja crescer no aço retorcido da porta. O que Jack Reacher faria?
Filho da puta! Atiro com ódio. Ouço um grito e a sombra sai mancando. As portas do Compass batem e os pneus cantam na partida.
— Porra, me ajuda aqui. Eles já foram. — É a voz de Gordo. Me levanto. Um disparo e me jogo outra vez no chão.
— Gordo, filho da puta! — Levanto a cabeça, ele se apoia no paralama do jipe. Tá ferido no ombro. Junto todas as minhas forças pra me levantar e atirar nele. Destravo a pistola com dedos trêmulos. Ela me escapa das mãos e um tiro ricocheteia na porta e atinge minha perna.
— Caralho! — minha panturrilha esquerda queima, pressiono o local com a mão. Foi de raspão.
— Tamo fudido, porra! — a voz de Gordo vem trêmula com um choro. — A gente tem que ralar daqui. Eles vão voltar.
— E por que tu tá atirando em mim, porra? Eu sou a tua única chance. — Lembro que Binho tá com a minha moto. — Como é que é, caralho?
A pistola desliza na minha direção. Levanto pego as bolsas e as armas. Jogo tudo no carro junto com o filho da puta traidor. O sangue escorre pelo tornozelo e entra pelo tênis, enquanto dirijo sem saber onde estou. Pego o celular que tenta escapar com a ajuda do sangue na mão.
— Binho. Tô fudido. Me encontra no beco com a moto. — Saio da estrada, atravesso a praça e entro na favela. Binho tá lá.
Ele vê Gordo gemendo no banco detrás.
— Porra, cara, valeu, só tu mesmo, meu irmão! Te devo uma. Esse Gordo me botou… — Binho sorri tipo me conta a novidade.
— Quem deve paga, né. Que que tem nas bolsas?
— Celular.
— Tira elas do carro. Marca um dez aí.
5 horas da quinta-feira
— Benhê! Que que houve? Tava preocupada!
— Toma aqui cem reais. Pega remédio pra dor e curativo. — Olho a cara dela entre assustada e puta da vida. — Vai logo mulher que tô todo fudido.
15 horas da quinta-feira
Acordo com o choro do bebê. De um pulo, sento na cama quando lembro de tudo que aconteceu na noite anterior. Da sala, amamentando o bebê, ela me vê. Parece tranquila.
— O Gordo foi encontrado morto. Onde tá a tua moto?
— Vendi pra fazer a festa.
— E essa perna?
— Daqui a pouco tá boa pra outra. — Tento sorrir. — Depois queima aquela roupa.
— Já fiz isso.
— Tu é demais, mulher, tu é a melhor! — Vem cá, teu Jack Reacher tá carente. Vem!
18 horas de sábado
O salão de festa tá todo decorado. Bolo, painel, toalha, enfeite, bandeira do Flamengo. Gente pra cacete, a criançada se esbaldando nos brinquedos, cerveja a rodo, bunda rebolando o funk que toca sem parar.
Meu pai nunca me deu nada. Eu sou diferente. Quero dar o melhor pro meu filho. Esse é o meu melhor?
— Oh, meu filho, machucou a perna? — minha mãe chega na festa. Levanto contente e beijo a cabeça que está bem mais branca que da última vez que estivemos juntos.
— Foi nada não, mãe. Já tô bom. Caí de um andaime na obra. — Ela leva as mãos enrugadas à boca e me abraça.
Meus amigos, minha mãe, meu filho, minha gostosa…
Jack Reacher tá mais contente que pinto no lixo.
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