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Mostrando postagens de fevereiro, 2023

NUVENS APRESSADAS

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Restava-lhe apenas o corpo decrépito entregue ao destino fatal. Até mesmo a mente a traiu. As lembranças respingavam como nuvens apressadas pelo vento. No banho extasiava-se com a água que caía do chuveiro, enquanto outra mulher insistia em esfregar suas costas e lavar as partes mais íntimas. Lá rá lá lá.  Desejou cantar algo semelhante aos pingos transformados nas linhas melodiosas da água.  Ah, a chuva! O banho de chuva. Uma criança brincando sob a chuva. Talvez fosse mais uma nuvem apressada pelo vento. Alguém abriu a porta, era ela. Aquela garota que transportava canções consigo.  — Tá alegre, Bisa? Vamos dançar? Falou isso e de repente se fez a música. Dois ou três acordes entraram no coração do velho corpo, sacudiu-o num susto. Outra nuvem surgindo apressada  jogou-a em sua juventude décadas atrás. Planos e expectativas, alegria e ansiedade carregando a vida para o desconhecido, desejo e certezas cruzando caminhos. A música esculpiu o nome de uma dor em sua alm...

SEGUNDO

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Prometeu para si mesma ser aquela a última vez a participar de uma premiação. Cansada de ser o segundo lugar. Bufou. Suspendeu a barra do vestido dourado e caminhou até o toalete. Enquanto isso, a grande vencedora soluçava um sistema de gritinhos binários. Escritora entrou no banheiro. Lavou as mãos com vigor. Pensou em chorar, talvez gritar, mas qualquer atitude seria também um clichê. De repente a voz. — Procurei você pelo salão. Queria dedicar o prêmio… A mulher se assustou e buscou as palavras serpenteando pelo ar. — Desculpa, não quis assustar.  — A pronúncia silabada ecoou entre as paredes e os ouvidos humanos. — Muito gentil da sua parte!  Não se preocupe comigo. O mérito é todo seu. — A resposta saiu áspera enquanto Escritora fixava a frieza de seus próprios olhos no espelho. Tentou emoldurar um sorriso no rosto e sentiu o fígado espetar. Pressionou a mão direita mal disfarçando. Simular para quê? Aquilo era só uma maldita IA roubando suas chances. — É que você foi sem...