NUVENS APRESSADAS
Restava-lhe apenas o corpo decrépito entregue ao destino fatal. Até mesmo a mente a traiu. As lembranças respingavam como nuvens apressadas pelo vento. No banho extasiava-se com a água que caía do chuveiro, enquanto outra mulher insistia em esfregar suas costas e lavar as partes mais íntimas. Lá rá lá lá. Desejou cantar algo semelhante aos pingos transformados nas linhas melodiosas da água. Ah, a chuva! O banho de chuva. Uma criança brincando sob a chuva. Talvez fosse mais uma nuvem apressada pelo vento. Alguém abriu a porta, era ela. Aquela garota que transportava canções consigo. — Tá alegre, Bisa? Vamos dançar? Falou isso e de repente se fez a música. Dois ou três acordes entraram no coração do velho corpo, sacudiu-o num susto. Outra nuvem surgindo apressada jogou-a em sua juventude décadas atrás. Planos e expectativas, alegria e ansiedade carregando a vida para o desconhecido, desejo e certezas cruzando caminhos. A música esculpiu o nome de uma dor em sua alm...