NUVENS APRESSADAS



Restava-lhe apenas o corpo decrépito entregue ao destino fatal. Até mesmo a mente a traiu. As lembranças respingavam como nuvens apressadas pelo vento.

No banho extasiava-se com a água que caía do chuveiro, enquanto outra mulher insistia em esfregar suas costas e lavar as partes mais íntimas.

Lá rá lá lá. 

Desejou cantar algo semelhante aos pingos transformados nas linhas melodiosas da água. 

Ah, a chuva! O banho de chuva. Uma criança brincando sob a chuva. Talvez fosse mais uma nuvem apressada pelo vento.

Alguém abriu a porta, era ela. Aquela garota que transportava canções consigo. 

— Tá alegre, Bisa? Vamos dançar?

Falou isso e de repente se fez a música. Dois ou três acordes entraram no coração do velho corpo, sacudiu-o num susto. Outra nuvem surgindo apressada  jogou-a em sua juventude décadas atrás. Planos e expectativas, alegria e ansiedade carregando a vida para o desconhecido, desejo e certezas cruzando caminhos.

A música esculpiu o nome de uma dor em sua alma. As mãos de rugas alcançaram as orelhas. A bisneta abaixou o volume. Mas a Bisa decidiu-se pela coragem. Deixou a melodia invadir os ouvidos. Enfrentou-a. As notas entraram intimamente e traçaram a imagem das mãos entrelaçadas do jovem casal. Nos rostos, anseios e esperanças. Aguentou o sofrimento até que aquela nuvem pairando sobre si diluísse em chuva.

Uma lágrima lavou a água de sua face.

Mais um pouco de força.

Encontrou em si a juventude súbita. Olhou a garota e viu-se nela. A alma irrigada pelo entusiasmo da mocidade alegrou-a. 

Abaixou a cabeça e viu a pele flácida das coxas assentadas na cadeira de banho. Não importava a decrepitude, aqueles 20 anos lhe pertenciam. Estavam gravados em sua alma imortal.

Agora queria dançar sob a chuva.

@roarrudaescritora


Comentários

  1. Nossa, a cada conto você se supera. Parabéns, impossível não se emocionar e não viver junto com o personagem tudo que é narrado. Escreva mais!!!!

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