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Entre pássaros e notas

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  para minha irmãzinha Rosângela Manhã de domingo no parque O concerto deveria ser suspenso. Secretamente rezava para que isso acontecesse. Mas a regente irredutível viajaria dali a poucos dias para a Europa. Discordavam dela madeiras e cordas e eu, a pianista. O mau tempo ameaçava os frágeis instrumentos. De minha parte, lamentava ter pedido a corrida contra ele nos últimos dias. Trabalhar, cuidar da mãe doente, atender as necessidades do filho adolescente problemático, pagar as contas… Ufa! Confesso. Não me sentia devidamente preparada. Não houve o ensaio geral. Eu não estudei o que devia. Angustiava-me. Não que desconhecesse as peças, mas… Tem de ser hoje não há saída.  Olhei em volta para avaliar o público. Apesar da chuva fina e do vento, dezenas de desvairados já se escondiam sob capas e chapéus para assistir ao concerto naquela manhã de domingo. O palco estava protegido por grossas lonas que desciam pelas laterais e pelo fundo. Do lado direito da batuta estava o piano...

NUVENS APRESSADAS

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Restava-lhe apenas o corpo decrépito entregue ao destino fatal. Até mesmo a mente a traiu. As lembranças respingavam como nuvens apressadas pelo vento. No banho extasiava-se com a água que caía do chuveiro, enquanto outra mulher insistia em esfregar suas costas e lavar as partes mais íntimas. Lá rá lá lá.  Desejou cantar algo semelhante aos pingos transformados nas linhas melodiosas da água.  Ah, a chuva! O banho de chuva. Uma criança brincando sob a chuva. Talvez fosse mais uma nuvem apressada pelo vento. Alguém abriu a porta, era ela. Aquela garota que transportava canções consigo.  — Tá alegre, Bisa? Vamos dançar? Falou isso e de repente se fez a música. Dois ou três acordes entraram no coração do velho corpo, sacudiu-o num susto. Outra nuvem surgindo apressada  jogou-a em sua juventude décadas atrás. Planos e expectativas, alegria e ansiedade carregando a vida para o desconhecido, desejo e certezas cruzando caminhos. A música esculpiu o nome de uma dor em sua alm...

SEGUNDO

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Prometeu para si mesma ser aquela a última vez a participar de uma premiação. Cansada de ser o segundo lugar. Bufou. Suspendeu a barra do vestido dourado e caminhou até o toalete. Enquanto isso, a grande vencedora soluçava um sistema de gritinhos binários. Escritora entrou no banheiro. Lavou as mãos com vigor. Pensou em chorar, talvez gritar, mas qualquer atitude seria também um clichê. De repente a voz. — Procurei você pelo salão. Queria dedicar o prêmio… A mulher se assustou e buscou as palavras serpenteando pelo ar. — Desculpa, não quis assustar.  — A pronúncia silabada ecoou entre as paredes e os ouvidos humanos. — Muito gentil da sua parte!  Não se preocupe comigo. O mérito é todo seu. — A resposta saiu áspera enquanto Escritora fixava a frieza de seus próprios olhos no espelho. Tentou emoldurar um sorriso no rosto e sentiu o fígado espetar. Pressionou a mão direita mal disfarçando. Simular para quê? Aquilo era só uma maldita IA roubando suas chances. — É que você foi sem...

JACK REACHER'S PLANNER

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Tarde de domingo Mais outra semana pela frente! Eu aqui vendo filme e tentando esquecer o quanto de dinheiro tenho que arrumar para ser um Jack Reacher. Explosivos armas saltos. Essa loura é um tesão. — Benhê! Como vai ser a festinha do baby? Não acredito que domingo à tarde ela tá falando disso! Posso aumentar o volume da tv e ela vai achar que não ouvi. Posso cochilar… A verdade é que não tenho um puto. O Dinho ficou de me arrumar um rolo com as peças que o Zinho me passou. Puta merda! Esses malandros também são muito enrolados. Às vezes me meto no trampo com eles só por causa da amizade.  Ouço os passos saindo do quarto. Fecho os olhos rapidinho. — Benhê! O baby tá dormindo! Continuo fingindo mas sinto o peso dela no meu colo. Abro os olhos. Ela já está sem roupa. Meto-lhe logo um beijo e aperto as coxas, deslizo a mão até a bunda. Ela se abre toda. Quer mais alguma coisa. — O pastor disse que empresta o pátio da igreja pra festinha do baby. Sinto tudo amolecer. Quando a esmola ...