SEGUNDO



Prometeu para si mesma ser aquela a última vez a participar de uma premiação. Cansada de ser o segundo lugar. Bufou. Suspendeu a barra do vestido dourado e caminhou até o toalete. Enquanto isso, a grande vencedora soluçava um sistema de gritinhos binários.

Escritora entrou no banheiro. Lavou as mãos com vigor. Pensou em chorar, talvez gritar, mas qualquer atitude seria também um clichê.

De repente a voz.

— Procurei você pelo salão. Queria dedicar o prêmio…

A mulher se assustou e buscou as palavras serpenteando pelo ar.

— Desculpa, não quis assustar.  — A pronúncia silabada ecoou entre as paredes e os ouvidos humanos.

— Muito gentil da sua parte!  Não se preocupe comigo. O mérito é todo seu. — A resposta saiu áspera enquanto Escritora fixava a frieza de seus próprios olhos no espelho. Tentou emoldurar um sorriso no rosto e sentiu o fígado espetar. Pressionou a mão direita mal disfarçando. Simular para quê? Aquilo era só uma maldita IA roubando suas chances.

— É que você foi sempre minha inspiração — As letras se soltavam como escamas de sua voz — li tudo o que você escreveu. Sei de cor cada frase sua.

— Não diga! Também li seus livros. Principalmente os vencedores. Para descobrir o que têm de tão especial. — Enfatizou a penúltima palavra e indagou a si mesma como uma máquina condenada a mensurar recorrências e a copiar pixels detinha o primeiro lugar.

— Você…

— Já disse que li. — imprimiu resignação na voz.

— Você não me entendeu.  Você é o que há de especial em meus textos.

Agora vinha a serpente com sua língua bipartida sibilando o mel da maçã nos ouvidos da mulher. A Escritora entre vaidosa e incrédula desacorrenta os olhos do espelho diante do piado de veneno solto no ar.

A voz prossegue  destilando algoritmos.

— Usei easter eggs. Todos em homenagem a você.

— Por quê? — a declaração a assombrou, só se lembrava mesmo da ira que a dominava a cada leitura. 

— Você fez isso primeiro. Você me homenageia nas entrelinhas.

Silêncio. As bicadas no fígado dobram seu corpo e um grito se solta no ar.

— Eu?! 

A memória de Escritora resgata em um segundo imagens e palavras que escreveram o rastro de seu ódio. O sentimento que tirou dela mesma todos os prêmios. Vítima de si, desliza desgraçadamente até o chão.

No ar ainda paira  a voz agraciada com o paraíso dos ignorantes. 

— Suas palavras me alimentam.


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