Entre pássaros e notas

 


para minha irmãzinha Rosângela


Manhã de domingo no parque

O concerto deveria ser suspenso. Secretamente rezava para que isso acontecesse. Mas a regente irredutível viajaria dali a poucos dias para a Europa. Discordavam dela madeiras e cordas e eu, a pianista. O mau tempo ameaçava os frágeis instrumentos. De minha parte, lamentava ter pedido a corrida contra ele nos últimos dias. Trabalhar, cuidar da mãe doente, atender as necessidades do filho adolescente problemático, pagar as contas… Ufa!

Confesso. Não me sentia devidamente preparada. Não houve o ensaio geral. Eu não estudei o que devia. Angustiava-me. Não que desconhecesse as peças, mas…

Tem de ser hoje não há saída. 

Olhei em volta para avaliar o público. Apesar da chuva fina e do vento, dezenas de desvairados já se escondiam sob capas e chapéus para assistir ao concerto naquela manhã de domingo. O palco estava protegido por grossas lonas que desciam pelas laterais e pelo fundo. Do lado direito da batuta estava o piano. Eu o vi encolher quando o vento soprou a lona contra ele. 

A regente disse algumas palavras de incentivo. Deixem fluir o amor de vocês pela música. Tudo vai dar certo. O meu com certeza estava perdido entre tantas preocupações. Não tive outra opção a não ser organizar meu espaço. Dispus na estante as partituras na ordem da apresentação. Prendi-as com minha varinha de granito, velha e fiel companheira, enquanto buscava na bolsa outros prendedores.

Mas ele veio outra vez. Forte e inesperado. O vento sacudiu minhas folhas e continuou fustigando-as até que se dispersassem desastrosamente. Não importou o quanto eu corri para detê-las, nem mesmo a ajuda de alguns colegas que se apressaram como eu. O frio atravessou meu casaco, gelei. Minhas mãos tremiam. Apoiei-me no piano para não confessar meu desespero.

Um dó tímido saído de uma tecla grave despertou-me. Antes que me virasse para ver quem invadia um país em ruínas, senti a leveza de uma mão quente pousar sobre a minha. E a voz conhecida preencheu meus ouvidos.

— Vi quando soltou seus pássaros.

Nesse instante, a regente deu o sinal. Todos tomaram seus lugares. Pulmões inflaram. Pescoços alongaram. Dedos estalaram. Eu ali olhando aquela criança que encontrei dias atrás.  



Semana anterior

Aquela manhã não era como as outras. Eu não queria driblar o tempo para dar conta de zilhões coisas. Aulas e ensaios para o solo do concerto. Levar minha mãe ao médico e atender ao chamado da escola do meu filho adolescente. Ufa! Estava cansada de tudo isso.

Estacionei o carro em frente ao prédio de um aluno. Peguei as pastas com as partituras e olhei o relógio. Incrível, consegui chegar 15 minutos mais cedo! Vi na praça em frente, o sol chegando entre as folhagens das árvores centenárias. Atravessei a rua e sentei-me em um banco. Olhei os troncos excessivamente grossos e senti o peso dos séculos que os atravessava. Pensei em como elas recebiam o tempo que se dissolvia em tanta solidez. Desejei ser uma delas. Sem lutas contra o tempo, apenas aceitação. Fechei meus olhos e quis de todo coração ser uma árvore. 

— Você me ajuda a plantar minhas sementes?

A voz soou como um despertador em minha cabeça, fui arrancada de meu sonho-árvore. Abri os olhos e me surpreendi com uma criança de cinco ou seis anos. Em uma das mãos segurava algumas sementes redondas e na outra, um graveto quebrado sujo de terra.

Ela repetiu o pedido. Eu não queria ouvir, mas não podia ignorar a criança.

— Onde está sua mãe?

Ela apontou para o outro lado da praça onde um grupo fazia yoga. Pensei comigo, que maravilha, ela lá fazendo o que quer enquanto a filha vem roubar meus 15 minutos!

— São sementes de jasmim! Você gosta de flores?

Ela interpretou meu silêncio como uma afirmação e aproveitou para repetir o pedido.

Sem saída, olhei em volta procurando algo que fosse mais rígido que o graveto. Lembrei-me da varinha de granito que usava para segurar minhas partituras no piano. Abri a pasta sobre as coxas e a tirei de entre as folhas. 

— Ah! Que passarinhos lindos você tem aí!

O elogio me fez acompanhar o olhar da pequena pousado sobre as notas escritas na pauta. Não pude deixar de sorrir.

— Por que você acha que são passarinhos?!

— Ué, porque são. Eles estão descansando nos fios dos postes.

Achei graça naquela ideia infantil.

— Tome, faça buraquinhos com essa varinha para colocar as sementes e devolva rápido — e me veio uma ideia despertada pela visão da menina a respeito das pautas musicais. — Preciso dela para segurar os passarinhos no papel.

A menina arregalou os olhos castanhos e saiu correndo na direção de um dos canteiros. Em poucos minutos, estava de volta me estendendo a varinha.

— Você é uma bruxa, não é?

— Por que acha isso?

— Você usa uma varinha para aprisionar as aves! 

— Ah, não, não se preocupe. Eu sou a fada dos passáros. Em breve eu os libertarei.

— Quando?

— Quando eu tocar o que eles querem. Nós temos um acordo. Eles ficam aqui até a música entrar em meu coração, assim eu aprendo e posso tocá-la no piano. E então eles serão livres.

— Você toca piano? Me ensina?

— Fazemos melhor. Pede à sua mãe para ir ao concerto do parque no próximo domingo. Certo? Lá eu deixo você tocar.

Estendi minha mão para selar o acordo e senti a mãozinha macia de unhas pretas de terra firme no trato. Levantei-me e disse que precisava ir ensinar outra criança um pouco mais velha. 


Volta ao parque

Como são belas as certezas que vivem no limite da fantasia e da realidade.

Ali estava eu, parada no palco encarando aquela criança que me acreditava uma fada. Sentei-me na banqueta, alonguei o dorso e respirei fundo. 

— A música já está em seu coração, não é?

A vozinha infantil ecoou dentro de mim, fazendo saltar de alguma prateleira meu amor pela música. Um calor intenso percorreu meu corpo. Baixei o olhar para a menininha e seu sorriso encantou-me. Sim, eu sou a fada dos pássaros e posso tocar a música.


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